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dentro de mim existe um pedaço muito grande conectado ao Japão. minhas referências estão quase todas nesse lugar... sempre me encontro nessa cultura incrível.

todo o aprendizado dentro dela é complexo, tamanha sua simplicidade. como a língua e a escrita, o shodô, a literatura, de Kawasaki a Murakami, o Zazen, o cinema de Ozu a Kurosawa, a prática do taichi, da arte de Hokusai a Kusana.

assim me encontrei e me perdi completamente nesse encontro com a cerâmica. já estava preparada, como que esperando por ela. de todas as experiências que já havia vivido internamente, a cerâmica foi a que eu pude me relacionar da forma mais visceral.

as referências fora e dentro de mim já existiam, elas apenas tomaram a forma na linguagem da massa, da água, do ar e do fogo, ou seja, tudo o que um corpo cerâmico precisa para existir. desde a primeira vez que tive contato com o torno, e os movimentos, senti que me não teria como não me entregar. desde então, vivo todos os dias essa arte repleta de segredos.

no torno, mantenho a postura, respirando fundo com a massa e a água, com as voltas do torno, com minha cabeça e minhas mãos integradas, tudo em mim se equilibra em unidade onde aprendo a respeitar os limites do material e do humano.

existe uma troca entre as minhas mãos e a massa que vai tomando a forma e o volume que quero, nesse momento mãos, água, massa e movimento exigem troca para que haja cumplicidade e entrega, para que a forma assim exista, e seja única, como o momento.

no acabamento, o sentir da peça nos faz entender, tirar o que não pertence a forma, não tirar demais, para não desfigurar. tirar a exata medida do que está a mais.

os vidrados foram todos estudados e criados por mim. a cor opaca e a textura acetinada são as que mais gosto. são misturas minerais complexas de extrema beleza e simplicidade.

ao final desse longo processo, eu e a cultura japonesa nos encontramos de novo - o pensar sempre no outro ganhou força.